quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Eu queria ter !


"Aqui falam os repórteres da casa das mulheres,
das diretamente enviados à cruz, do homem
total sem posses, possível homem das pazes;
da rua da criação do mundo,
da rua da paz e seu confronto duradouro,
da rua anônima onde se encontra um menino
massacrado ou perdido frente ao ronco
industrial de motores e polícias.

Aqui falam os amigos íntimos do moço trabalhador
de qualquer país, de qualquer continente,
a fazer com que circulem papéis impressos
donde se lê que o capitalismo extermina
todos os anos 58 milhões de homens feitos,
mulheres e crianças menores que uma
caixa de sapatos;

aqui estão a voz e o rosto negro da mulher
ex-empregada doméstica que se recusou a passar
fome, e foi condenada a três anos inteiros
de reclusão num presídio por haver roubado
o que botar no pão, dos corredores de um
supermercado francês, no Brasil.

Por aqui caminha o profeta ou pastor Operário,
ele aponta pela Terra os nomes de seus traidores,
ele aponta no ar um laço promissor de estrelas
e ferramentas que se cruzem, e formem seu brasão
de armas e outras coisas que dão som,
e sejam por esse ar a bandeira vermelha,
aberta por uma memória
de camisas rotas de sangue
e feliz toalha de mesa.
“Messiânicos!”, grita mister jornalista de smocking,
“o comunismo acabou, nós rasgamos para sempre
a bela toalha para todas as mesas.”
Nós respondemos: “Imbecil, a mesa em breve
estará posta, até mesmo em tua casa.”

Aqui falam o desempregado e seu desespero
quase indescritível, não fosse a descrição geral
do que sentem o condenado, o sentenciado
à loucura, o trabalhador esmagado pela prensa
e o soldado sem balas e sem batalha,
apontado como desertor, chamado covarde, parasita,
estúpido, viciado, oportunista, vagabundo,
burro, senil, doente, vergonhosamente doente.
Aqui fala o desempregado, com sua dor
de sapatos furados e um fedor acre, desde o asfalto
calcinado de sol, desde as casas abandonadas
e imensas antenas metropolitanas, perante as quais
seguem perfilados, defumados, os tonéis
de gasolina azul para os helicópteros dos milionários
e a fachada de cristal das pocilgas de fino trato.
Aqui fala meu camarada desempregado,
com esse suor dos tempos, com esse calvário
aceso do Inferno.

Aqui fala meu companheiro desempregado,
com quem caminhei por anos infinitos,
com quem mastiguei a brasa de seu coração
rachado de marretas e calor dos fornos
em que se fizeram o pão e o bolo,
longe de suas mãos. Foi quando morremos os dois,
somente assim nos separamos.

Aqui fala a moça expulsa dos caminhos bonitos
de lojas altas e chafarizes,
aqui fala a menina vendida por seus pais
famintos e imensamente mortos;
aqui fala o homem diverso, em tamanho e graça
crescido diante das mulheres,
diante de seus olhos abertos, para sempre
abertos, é possível apenas que permaneçam abertos.

E aqui também ninguém fala, aqui calamos todos."

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Excelente texto do meu amigo EDUARDO MUSTAFA VIANNA, que retrata a (in)justiça do mundo em que vivemos, essa beleza, que é o capitalismo.

E, é por isso que eu QUERIA TER aqui, o COMUNISMO !

Abraço a todos e ótimo dia.



1 Cerveja(s):

Du Olho Seco disse...

Ora, Rafão, que simpático da sua parte publicar um texto meu aqui no Xinaipes, obrigado.
Quanto a ser comunista, eu mesmo, se não fosse isso aí, não seria mais merda nenhuma nesse diabo dessa vida.

Putabraço!

Du

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